Sejamos novos enquanto nos tornamos cada vez mais velhos
Para não ser acometido de um ataque de fúria contra os inexplicáveis e absurdos abusos com o dinheiro público (o mesmo que quase acometeu a cronista Cora Rónai), trato, hoje, de outro assunto.
Concordo com o teósofo, biblista e articulista deste canto José Reis Chaves, que nos aconselha a sermos novos enquanto nos tornamos cada vez mais velhos. Aliás, só merece a velhice aquele que tem a coragem de melhorar com o tempo. E creia: a tarefa é factível.
Não me refiro a (tentar) voltar no tempo e fazer, como alguns o fazem, mudanças estruturais ou profundas, tais e tantos são os estragos que produzem, por exemplo, as cirurgias plásticas (e, infelizmente, nos que mais acreditam nela...). Dependendo do seu porte, mudam até a personalidade e deixam o físico (que mais sofre com as supostas correções) em pandarecos. Nada tenho contra os que - velhos ou novos - a fazem. Se de fato gostam, tudo bem. Sou visceralmente contra a censura, em qualquer das suas formas. Há amigos - velhos, nos dois sentidos - que a fizeram e gostaram...
Que fique claro que não tenho receita para enfrentar a dura peleja que é a velhice. Que se inicia, às vezes, ainda na mocidade. E, para se caracterizar de verdade, não conta só com o tempo, ou só com a idade, que é a duração "ordinária" da vida, naquele sentido que o vocábulo assume quando se diz assim de alguém: "Fulano é ordinário!" Para mim, o velho precisa viver mais o extraordinário do que o ordinário. (Por favor, não me perguntem como se consegue isso porque não sei...).
Digo, humildemente, pela experiência que (ainda não) adquiri: a primeira condição talvez seja a de se conscientizar, como propõe meu irmão Otto Lara Resende, em entrevista a Leo Gilson Ribeiro, de que "a morte é o clube mais aberto do mundo". A entrada - digo eu - é gratuita, não exige joia nem condomínio, não dispõe de estatuto, não discrimina nem tem taxas ou contribuição de melhoria, nem dispensa quem quer que seja. Passou por aqui, há de passar por ela...
Há muitas outras condições. Pelo menos esta - tenho certeza - é indispensável: aceitar não só a velhice, mas a sua velhice. Olhar-se no espelho toda manhã e dizer para si mesmo: "Sou um velho resignado, mas que se rebela contra o massacre do tempo e não permite, igualmente, seja intimidado por ele a ponto de me tornar um zero à esquerda. Quero tudo a que tenho direito e que a vida me possa dar. Tudo dentro do ritmo de que sou capaz de suportar". Diga isso todas as manhãs, e nunca se impressione com ela só porque a viu de perto...
Alinho mais uma condição, talvez a principal: saiba conviver com velhos e novos, tratando-os com a mesma atenção, mas não absorva os maus conselhos, que sempre vêm de uns e de outros. Com os primeiros porque (para sua segurança) necessitam da compreensão de velhos como você; com os segundos porque (coitados!) podem não chegar à sua idade... É muito útil lembrá-los dessa verdade...
Mas nunca se iluda (como muitos de nós): a velhice pode, sim, piorar os defeitos naturais à juventude, mas pode conduzi-lo à sabedoria. Essa conquista, porém, só será possível entre os jovens. É através deles, no meio deles e somente com eles, e sem largar de lado os velhos, que você se tornará um sábio - um sábio cuja sabedoria está em que jamais se deve impor (só porque se é velho) a palavra final.
Como disse a filósofa (e imortal) Hannah Arendt, "a falta de futuro não precisa ser, necessariamente, causa de angústia"...
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Fonte: O Tempo. Publicado em 07/05/2009.
http://www.otempo.com.br/otempo/colunas/?IdEdicao=1287&IdColunaEdicao=8472
ainda to viajando, mas semana que vem visito vcs!!
bjs na alma!
"Há sempre, nas mais sinceras confissões das mulheres, um cantinho de silêncio." (Paul Bourget)
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Eu acho, ou melhor, acho não, tenho certeza, que temos totais condições de "envelhecer" sem ficar velhos, o corpo é que vai se cansando e reagindo ao tempo, mas ele é mesmo passageiro, o que temos que cuidar muito é da alma, e essa minha linda, não envelhece, e é dela que Deus quer que cuidemos muito, que lapidemos a cada dia...muitos beijos pra ti, em todo o seu coraçao, bom sentir voce de volta no Livro, me deixa calmo....lindo final de semana pra voc.e
ResponderExcluirps...voce tem alguma noticia da Vilminha, li no blog dela que melhorou e tal, mas ela nao tem me visitado e nem me respondido no orkut...beijos
Um texto que merece ser lido e relido por todos!
ResponderExcluirÉ sempre um imenso prazer estar aqui acompanhando.
Um beijo carinhoso e de saudades!
É isso, aí, querida.
ResponderExcluirEssa semana vi a Márcia do saia justa dizendo: quero ficar velha, mas não quero nunca ficar antiga.
beijocas
MM.
Lane, D. Hélder dizia que "o segredo da eterna juventude é se ter uma causa a que dedicar a vida". Quando tomamos objetivos em nossas vidas, estamos dando um sentido para vivê-la bem. Isso é ser jovem, é nunca envelhecer. As marcas do tempo que ficam no corpo deixam de ser rugas e passam a ser experiência e sabedoria adquirida. Beijos, amiga! Saudades de tu, mulher!
ResponderExcluirParabéns pelo belo texto.
ResponderExcluirFim de semana de luz.
ResponderExcluirbeijooo.
Lane, estou de volta com novo blog, que aliás, continua e é o mesmo...
ResponderExcluirMenina Lane, adorei o artigo aí do post. Sou um apaixonado por esse tipo de crônica que, em verdade, é um miniensaio.
Dia desses terminei de ler um livro com esse mesmo riscado. Assim que o livro chegou ao fim, me senti no dever de retomá-lo de cara! E o fiz. Resumo: por ser antigo(de 1939), o livro partiu-se ao meio, mas até ficou melhor(depois mando restaurá-lo. aliás, comos empre faço com meuslivros que compro nos sebos daqui da "Má-ringá", como diz a insígne prôfa Marta Bellini).
Na primeira parte o autor (Viana Moog) fala do humor em Petrônio; na segunda, do humor em Cervantes, e na terceira, o de Machado de Assis. Tema fascinante; garimpar humor nessas três figuras históricas. Recomendo (...quem sou euepra recomendar leitura, hem? ahahahahah).
bjs
P.S.: por fv, repare, e mude a URL de indicação de meu blog aí no seu rol, ok? re-abs
Não são as coisas bonitas
ResponderExcluirque marcam nossas
vidas, mas sim as pessoas
que tem o dom de
jamais serem esquecidas.
Bjs meu.
Lane, eu passei aquí só para deixar um beijo e dizer que adorei essa postagem. O meu comentário já está feito. É exatamente igual ao da minha amiga Tereza Freire.
ResponderExcluirBeijos de sabedoria. Manoel.
Excelente semana pra vc!
ResponderExcluirTambém vou preferir não falar de política, dinheiro público e etc.
Bjos!
Bom dia querida, que bom que apareceu, que ta tudo lindo contigo, curtindo as crianças, seja feliz sempre, curtindo o mestre, fico feliz se voces estão felizes, pois é, viu ontem a Marcinha apareceu,,,rs,,rs,,,ela é muito linda, me disse que vai entrar em ferias de uns dias e na volta, "talvez" volte com o blog, eu disse que nada de talvez, ela tinha prometido...rs..rs..rs...beijos meu doce anjo, tenha uma linda semana de amor e paz...
ResponderExcluirPassando para ler as novidades.
ResponderExcluirDeixo saudações.
Lindo texto....
ResponderExcluirAproveito para avisar que mudei o endereço do meu blog. agora é http://mariliapensante.blogspot.com
caso queira dar uma espiada...
Obs: para continuar recebendo minhas atualizações é preciso me excluir e add de novo...
Bjus e uma semana iluminada!! *.*
E essa viagem não acaba mais???
ResponderExcluirJá estou ficando velha gaga de tanto esperar sua visita.
Adorei o texto e assino em baixo como se eu o tivesse escrito.
beijos